Não suspeito da minha perdição, mergulhada como agora, ao teu lado, na contemplação dessa paisagem interna onde não sei sequer que lugar ocupo, e nem mesmo estou. Na frente do espelho, nessas manhãs maldormidas, acompanharei com a ponta dos dedos o nascimento de novas lágrimas que escorreriam até o meu queixo, fio de veneno, o percurso áspero e cada vez mais fundo dos negros vales lavrados sob teus olhos profundamente desencantados. Sei de tudo sobre esse possível amargo futuro. Sei também que já não posso voltar atrás, que estou inteiramente subjugado e as minhas palavras, sejam quais forem, não serão jamais sábias o suficiente para determinar que essa porta a ser aberta agora, logo após ter dito tudo, me conduza ao céu ou ao inferno. Mas sei principalmente, com uma certa misericórdia por mim, por todos, que tudo passará um dia, quem sabe tão de repente quanto veio, ou lentamente, não importa. Só não saberei nunca que neste exato momento tenho a beleza insuportável da coisa inteiramente viva. Como um trapezista que só repara na ausência da rede após o salto lançado, acendo o abajur do canto da sala depois de apagar a luz mais forte. E começo a falar.